quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O que aprendi com o ipê.

Andei observando o ipê. O ipê é imponente, vai crescendo a cada tempo e podem ficar extremamente grande. O ipê é uma forte sombra nos demais dias do ano. Sua folhagem robusta  acolhe e encanta por sua grandeza. Ele sabe ser altivo sem jamais diminuir o que está a sua volta, assim é o ipê no meio das demais plantas. Chama para sua sombra, mas também leva aos demais que ali estão guardados sobre sua copa grandiosa.
E quando vem a secura ele não se empobrece; o ipê não seca sua beleza! As folhas caem pouco a pouco... são as adversidades do tempo. São coisas próprias do tempo do ipê! Faz parte da sua história, faz parte do seu ciclo vital perder! Coisas passageiras, que o ipê sabe que faz parte do seu caminho. O ipê se desnuda na seca, ele vai perdendo a folhagem, ficando sem nada, se não o caule que lhe protege. E depois das secas, das perdas e das saudades que o ipê avigora na sua vida, ele se enriquece e se orna de flores. Flores que encantam o olhar. O ipê se coroa de flores.

Na secura de uma vida toda, pessoas boas são como ipês! Tem seus tempos de folhagem, seus tempos de seca, mas também tem seus tempos de flores. Elas perdem um pouco no caminho. Vão se desnudando nos sofrimentos, nas contrariedades, e já sabem que elas fazem parte da vida, do ciclo do seu crescimento, daquela dita maturidade que o tempo mesmo constrói. Pessoas boas, assim como o ipê, trazem maravilhas aos olhos. Pouca coisa e elas já nos cativam. Pessoas de alma boa trazem todos para si, mesmo que suas flores não tenham brotado, só por serem boas, todos querem consolar seu momento de aridez. E como o ipê, elas florescem vigorosas e vicejantes nos tempos imos da sua seca.
O Ipê quanto mais seco é o clima, mais florido está. O ipê floresce na seca para lembrar que nada na vida é desprovido de beleza. Que mesmo o seco da vida é lida dura de um trabalho escondido, o silencioso trabalho do coração que confia quando aparece as intempéries da vida, o sofrimento é casa da fortaleza. O sofrimento é uma semente das nossas vitórias. Sofrer agora, para no final florir. O ipê já descobriu isso! Já sabe dar flores na seca! Já embeleza os nossos tempos de seca. Ipê como almas boas, já deixam que a flor daquela dor venha embelezar os olhos e o coração no tempo certo da sua florida.

E quando suas flores caem?
Suas flores não caem para morrer, como tantos pensam, ao contrário elas florescem para o consolo dos olhos, para o encanto das vidas secas que observam inertes aquele fenômeno desconcertante! E quando já cumprem sua sina, forram o chão para que outros venham descansar no seu limiar. Sentar nas suas floridas...
Eu descobri que sou ipê, porque não me canso de florescer, quando todos já estão secos de amar. Eu descobri que não importa quanto seca seja nossa vida, a dor ou o “amor” que os outros nos prometeram dar. Eu tenho que ser ipê para florescer na seca dos outros.

Diác. Raifran Sousa

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Minha mãe não deixa!

Pedro sempre foi um jovem muito alegre e vivaz. Trazia no coração bons propósitos e desejos que superassem as amarras insidiosas do mal.
Pedro sempre teve muitos amigos, natural para pessoas como ele! Pessoas boas sempre arranjam muitos amigos.
O mal sempre arranja um jeito de nos alcançar, com Pedro não era diferente. Ele tinha sim alguns amigos meio “tortos” que sempre buscavam tirar sua atenção das coisas boas, desviar seus passos do bom caminho. Os amigos de Pedro por vezes lhe faziam algumas propostas ruim, e até indecentes. Pedro, no entanto, sempre tinha uma resposta: “Minha mãe não deixa!”. Bastava os amigos virem com uma proposta maldosa e ele soltava: “Minha mãe não deixa!”
- Pedro, vamos roubar aquelas mangas do vizinho? Ninguém vai saber.
- Não posso! Minha Mãe não deixa! ”
- Pedro vamos jogar tinta no portão do vizinho? Ele pintou hoje! Lembra quando ele pegou nossa bola e rasgou ele porque havia caído no seu quintal? Vamos nos vingar!
- De jeito nenhum! Você está louco! Minha mãe não deixa!
E sempre Pedro tinha na ponta dos lábios a mesma resposta.
Os amigos diziam: “Credo essa mãe do Pedro vive proibindo ele! ” “Cara essa mãe do Pedro deve ser muito rigorosa! Credo!
No seu aniversário de 16 anos Pedro resolveu convidas seus amigos para um almoço em sua casa. Eles nunca tinham entrada lá. Essa seria a primeira vez. O primeiro pensamento que veio na cabeça dos jovens foi:
- Hoje finalmente vamos conhecer a mãe do Pedro.
Chegaram, entraram e logo foram olhando tudo e procurando a mãe do Pedro. Viram uma mulher em alguns retratos pela sala e logo pensaram: “Ah! Essa é a mãe dele!”
Passou algum tempo, o almoço foi sendo servido, mas nada da mãe de Pedro aparecer. Na casa eles apenas viam o pai e o avô de Pedro. Em dado momento Pedro subiu as escadas e foi ao quarto buscar algo. Os jovens logo perguntaram para o pai:
- Onde está a mãe do Pedro! Até agora não vimos ela! E toda vez ele fala dela!
O pai olhou assustado e disse:
- Mãe? Que mãe rapazes? A mãe do Pedro faleceu poucos meses depois de ter ele!
Os rapazes ficaram inconformados com aquilo!
- Ele mentiu para nós! Ele nos enganou este tempo todo. Esse Pedro é um falso!
 Pedro entrou na sala no mesmo instante. Os jovens disparam contra ele um tanto de palavras. Chamaram ele de mentiroso, de medroso... Que ele inventou uma mãe que não tinha.
O pai deu um sorriso discreto para o filho. Pedro do mesmo modo sorriu para os amigos e apontou para uma imagem de Nossa Senhora das Graças que tinha num bonito e ornado altar de sua sala de jantar, e disse:
- Claro que não menti! Eis aqui minha mãe! Eu tenho duas mães! Duas mães no céu. E uma delas me acompanha o tempo todo, onde quer que eu vá! Acaso não sabeis que eu sou da Imaculada?! Como posso fazer coisas erradas sabendo que minha Mãe vê todos os meus passos e por eles vela! Certamente vocês não fariam nada de errado se vossas mães estivessem vendo. Assim eu também não faço sabendo que tão boa Mãe olha o tempo todo por mim!
Santa Teresinha disse que “o olhar de Maria me curou, ela é mais Mãe do que Rainha!”. Pedro descobriu o olhar de Maria, que fitava seus passos, como uma mãe cuida do filho, e ele é filho de Maria. Ser filho de Maria não é repetir frases prontas, ou somente trazer sinais externos dessa pertença! Esses são importantes sem dúvidas, mas não somente isso! Ser filho de Maria é trazer uma consciência de filho, que por tanto amar Maria é capaz de ordenar todos os seus atos e ações na conformação da vida de Maria. É trazer gravado no coração os sinais dessa pertença. Pedro descobriu que tem uma mãe no céu e que deve trabalhar o tempo todo para alcançar com virtude o encontro com ela.

Devemos sempre recordar que tempos uma Mãe no céu, que vela e olha por nós! Isso nos ajudará muitas vezes a fugir do pecado e das coisas más.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Do Amor do Homem para uma mulher

            *Texto baseado em diálogos, convivência e experiências com casais.


         Homem e mulher se completam de tal maneira que ao meu ver nada existe de mais perfeito, naquilo que tange ao humano, do que esse encontro. Haja visto que aqueles homens que escolheram por vocação a vida matrimonial devem buscar ser os mais nobres e os mais dignos para uma mulher. A nobreza de um homem não pode ser totalmente atestada até que ele encontre uma mulher e que seja para ela um homem de verdade. Notavelmente a maturidade de um homem é provada quando ele vive não somente ser para si, mas descobre que nesta vocação ele é alguém absolutamente para outro. Não um outro para si indiferente, mas que lhe apetece de tal modo que ele chegue aquela conclusão, que todo homem tem quando encontra uma mulher que quer partilha para sempre sua vida: Que ser dela, e dela sendo não será de mais ninguém. O homem quando encontra uma mulher sabe com o tempo que toda mulher pode ser grande demais para ele, que elas trazem no coração e na alma a grandeza de quem sempre estará acima. E isso não é algo pequeno, mas sobremaneiramente acima daquilo que ele próprio é.
    O homem quando encontra uma mulher sabe que ela é mais que uma mulher, mas ele singulariza ela de tal modo que os olhos, os sentimentos e até o tempo que lhe cabem são para elas voltados e assim ela torna-se aquilo para qual converge todos os seus horizontes.  E não somente uma simples mulher, mas a mulher que lhe apraz no termo que diga: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! ” Gen 2,23, e que este desejo que ela seja carne da sua carne não esteja reduzido ao meramente carnal, no entanto seja expressão daquilo que todo homem deve buscar em uma mulher por primeiro: seu coração.
Parece utópico o que falo, mas não é tendo em vista tantos casais que conheço e que descobriram essa grande verdade. E minha tristeza é descobrir que poucos a descobrem. São tão poucos que entra em descrédito essas palavras, mas os que vivem isso sabem da grandeza destas. Talvez isso aconteça devido à falta de homens e mulheres que tenham a nobreza que toda união precise. Aquela nobreza que nos tempos idos havia. De que um homem fosse homem, e que uma mulher fosse mulher no sentido de uma maturidade e vivaz vontade de viver para alguém, não somente com palavras vazias, mas naquele desejo de viver o que diz. Palavras são apenas palavras se não estão alicerçadas naquelas práxis que tornam um homem e uma mulher legítimos na sua forma de viver. O que existe de mais admirável em um homem e uma mulher é que eles sejam verdadeiros, e tenham para si e também paras os outros, aquela fidelidade que de tão rara compara-se a um elo perdido, entretanto jamais impossível. E assim defino um homem e uma mulher de verdade! Ao passo que homens e mulheres de verdade são entes em falta.
Eu sempre penso na relação de um homem e uma mulher como um camponês que encontrou uma Rainha. Um homem para conquistar uma mulher deve ter a nobreza de um camponês que encontra uma Rainha! Aquela reverência e aquele respeito que são próprios de alguém que encontra grandeza além da sua. E mulheres de verdade são assim, são altas demais para baixos homens. Tanto é que mulheres de verdade não são para homens de mentira. Fato é que não dura muito um homem falso ao lado de uma mulher de verdade, e assim vice e versa. E não se engane! Mulheres de verdade sabem distinguir homens de verdade de moleques! O homem deve encontrar uma mulher como um cavaleiro que vai entrar num castelo, ao passo que se não possui tal nobreza, melhor seria não procurar o seu coração. São João Bosco dizia que “não peça a Deus uma mulheraté que tu proves que és um homem."
Um homem sozinho é apenas mais um homem, como tantos outros homens. Um homem com uma mulher é mais que um homem, é o que de mais extraordinário existe, e aquilo pode existir de mais elevado é um homem de verdade com uma mulher de verdade. Um homem e uma mulher são completude perfeita. O encaixe mais real e verdadeiro que possa ser percebido. Um homem é apenas um homem! Um homem com uma mulher é um nobre, um plebeu que achou uma Rainha, porque de todos os tesouros que existe, nada pode se comparar a uma Mulher. Duas coisas mudam o coração de um homem: Deus, quando ele se deixa encontrar. Uma mulher quando o encontra! Ao passo que inúmeros são os exemplos daqueles homens que foram achados por um Rainha, e das campinas da sua vida plebeia foram elevados ao trono do coração de uma mulher. Ao passo que ela lhe concede um novo significado para as coisas, para si mesmo. O amor é assim apenas uma palavra até que alguém lhe dê um significado.
Em tempos em que “homens” se gabam de “pegar muitas”, e aqui abro até um parêntese: pegar? Que coisificação! Tratar o outro como um objeto... Enfim, em tempos como estes, não tenho grandes elogios a estes homens que consideram um prêmio “ficar” com muitas mulheres, mas considero digno de grandes auspícios aquele homem que no labor do tempo e na grandeza que é própria de um homem de verdade, lançou a cabo aquela grande e admirável aventura, de em meio a paciência e verdade, encontrar o coração de uma mulher. A grandeza de um homem nunca será medida por “ficar com muitas mulheres”, mas por ter uma só que lhe seja mais que uma mulher, no entanto seja a única capaz de lhe fazer verdadeiramente um homem.

      

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O Seminário não é uma "colônia de férias!"

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O seminário é o lugar privilegiado da formação dos futuros sacerdotes da Igreja. Ali são forjados, a partir de Jesus Bom Pastor, os futuros sacerdotes. Algumas pessoas pouco sabem da vida cotidiana de um seminarista no Seminário. Podem surgir três extremos: para alguns os seminaristas ficam o dia todo rezando, uma visão um tanto piedosa. Outra parte acredita que ficamos o dia inteiro estudando, uma visão um tanto humana. Existe ainda uma outra visão equivocada do Seminário, a visão de que ele seja uma “colônia de férias”. Que seminarista fica o dia todo sem fazer nada. A vida de seminário é exigente, e não somente isso, ela é uma vida cheia de responsabilidades. Responsabilidades grandes e que devem estar de acordo com a missão que queremos abraçar. O Seminário tem uma vida própria que conduz ao famoso dito beneditino do “ora et labora”, ainda que não sejamos monges.
No seminário não temos moleza. E só vive na moleza quem quer! Trabalho não falta! Somos os primeiros responsáveis por nossa casa, o Seminário é nossa casa. O cuidado comum do ambiente de Seminário é responsabilidade de todos. Zelar por sua limpeza, harmonia e ordem é nossa obrigação. 
O serviço no seminário é dividido em equipes de serviço. No Seminário em que resido (Seminário Maior de Brasília) somos 97 Seminaristas divididos em 10 equipes, que se revezam nos serviços da casa: 
• Serviço do Copa: cuidar da organização do refeitório, servir as refeições, lavar louças. Sim, lavar louças! Quem nunca lavou vai aprender.
• Serviço de Recolhimento de Lixo: recolher o lixo dos espaços comuns da casa desde banheiros até corredores e cozinha. 
• Serviço do Jardim: ajudar no zelo pelas áreas verdes do Seminário. 
• Serviço de lavanderia: temos uma lavanderia interna, na qual cada seminarista pode enviar 10 peças por semana para lavar. Também aqui damos nossa contribuição duas vezes na semana. Caso o seminarista suje mais do que 10 peças o excedente fica por sua conta e também peças íntimas.
• Limpeza da Casa: Lavar banheiros (segunda - sexta-feira), salas, corredores e refeitório. 
Cada seminarista é também resposta pelo zelo para com suas coisas pessoais: limpeza do seu quarto e outras coisas em geral. 
Seminarista também estuda e estuda muito. São oitos anos: Filosofia (3 anos) e Teologia (4 anos), sem intervalo. Não tem moleza no estudo. Não tem essa de “são seminaristas”. Não tem essa coisa de “Filosofia de Padre”, estudamos Filosofia como qualquer outro estudante. Teologia não é aula de catequese. Tem que estudar muito! Não ficamos só lendo a Sagrada Escritura. Pensamos, refletimos, esquadrinhamos o pensamento teológico. Fazemos provas como todo estudante faz, e quando não atingimos as metas estabelecidas de aprovação somos sim reprovados. Somos cobrados no serviço de casa e também somos cobrados no estudo, com toda razão, uma vez que devemos buscar formar em nós Cristo Servidor.
Com tudo isso ainda temos alguns seminaristas que prestam serviço na coordenação e organização das diversas dimensões da vida de seminário: vida comunitária, vida acadêmica, vida espiritual, vida pastoral-missionária, vida humano-afetiva. E aqui recai uma forte exigência no que tange a organização destas dimensões: na promoção de mecanismos e elementos que possibilitem uma boa ordem, organização e realização de eventos, na ordem da casa e sua estrutura, a vida espiritual e litúrgica da casa.
Aos finais de semana trabalhamos também. Somos encaminhados ao serviço pastoral nas mais diversas realidades da Igreja: paróquia, organismos, pastorais e movimentos. Alguns perto e outros que percorrem até 330 Km para servir ao povo. Seminaristas que trabalham muito na formação das pessoas, e que fazem isso sorrindo, ainda que muito cansados. Por vezes sem um pingo de gratidão! O Senhor é nossa recompensa! Outro dia um amigo seminarista partilhava que “minha felicidade é ver os outros felizes, ainda que isso leve ao meu cansaço! ”. Vejo seminaristas que já trazem um coração de Pastor, um coração doado, dado e partilhado na vida do povo.
Também temos que cultivar a vida espiritual. O seminarista deve ser o primeiro responsável por sua vida de oração. Temos orações comunitárias: Santa Missa, Lectio Divina, Adoração e Liturgia das Horas. Como também temos que ter uma vida interior cultivada de forma pessoal. Rezamos sim e muito também! Ao passo que a oração deve ser para nós um momento de descanso com Jesus.
O Evangelho apresenta com uma clareza indubitável o chamado dos primeiros discípulos. Homens que estavam nas mais diversas experiências de vida, homens que pela força arrebatadora do chamado de Cristo deixaram tudo para seguir Jesus. Lucas em seu Evangelho traz uma palavra, que toca profundamente meu coração: “ ...e deixando tudo, eles o seguiram” Lc 5,11. Deixaram tudo para seguir o Senhor. Assim acontece com muitos seminaristas, que deixam tudo para seguir de perto Jesus. Médicos, professores, advogados, matemáticos, empresários, homens e jovens com futuros promissores, que abandonaram tudo para seguir um chamado. Deixaram sua família e muitas perspectivas de vida para ir além, para responder ao chamado Deus que arde em seus corações, um chamado inquietante! Essa é para você que acha que tem muito para perder! Sim, temos que “perder muito” para ser padre! Perder tudo aquilo que “normalmente” um homem seguiria na vida. O seminarista é alguém que perdeu para ganhar, e vai ganhar cem vezes mais: “Em verdade vos digo que não há quem tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras por minha causa ou por causa do Evangelho, que não receba cem vezes mais desde agora, neste tempo, casas, irmãos e irmãs, mãe e filhos e terras, com perseguições; e no mundo futuro, a vida eterna. ” Mc 10, 29-30. O que percebo é que essa perda em nada pode ser comparada com o ganho. 
Lembro até hoje quando disse para algumas pessoas sobre minha decisão. Fui muito questionado sobre minha escolha. Diziam do meu futuro promissor, minha escolha não me faria feliz, talvez seria melhor deixar para depois da faculdade, depois de “experimentar mais a vida”. Fui taxado de louco, de quem não tinha vivido ainda... De fato foi uma loucura! Uma loucura de Amor. Era preciso ser louco mesmo, para com 16 anos tomar essa decisão. Uma loucura que não tenho nenhum arrependimento. Uma loucura que tantos outros loucos como eu tomaram. Hoje posso dizer que sou feliz com minha escolha, que tem seus desafios como qualquer escolha na vida.
Eu confesso de todo o coração, e não somente por ser seminarista, que admiro os meus irmãos. Admiro a entrega deles. Admiro a fortaleza de cada um em deixar tudo, em superar a saudade e o sofrimento da distância dos seus. Perder momentos que são importantes na vida de uma pessoa para prosseguir na caminhada. Admiro estes homens que abandonaram tudo o que tinha para seguir Jesus. Admiro o sorriso no rosto que trazem, a alegria da entrega diária de continuar a dizer sim, mesmo com o cansaço das labutas cotidianas. Homens que trazem cravados na sua vida o gesto da entrega ao outro. O Seminário não é uma colônia de férias, não é um hotel para descanso de oito anos. É lugar para formar homens que queiram abraçar o sacerdócio com todos os seus desafios e lutas.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A "revolução" do idiota


Houve um tempo em que ser idiota era um fato grotesco e dado ao ridículo. Um tempo em que os idiotas faziam jus legítimo de sua condição, e não se davam ao trabalho de atestar isso, sua fala e seus trejeitos eram o maior dado de sua situação. Nem sempre os idiotas eram, como no senso comum, alguém em quem faltava cultura. E aí temos um fato curioso dos idiotas: eles conseguem saber um pouco das coisas, mas não conseguem deixar sua condição rasa das realidades, e nesse fato reside o maior problema de todo idiota, ele é um antirrealista, alguém dado a um sono constante das coisas reais. Um drogado da pior droga que um homem pode fazer uso, a falta de concretude de vida. A falta de ver as coisas na sua profundidade, no seu íntimo, o idiota é sempre dado ao raso.

Hoje é difícil não conviver com os idiotas. Eles conseguiram na destreza de sua condição, fazer uma verdadeira revolução, a única coisa que os idiotas conseguiram fazer de grande foi a percepção de que eles eram mais numerosos do que os homens dotados do realismo. Chego a mentir tendo em vista que em outra coisa os idiotas conseguem ser grandes: o seu número! O tempo hodierno é tratado por uma reviravolta única dos idiotas, eles conseguiram submeter a sua condição os lúcidos, os esclarecidos, ao passo que ser idiota hoje é uma honra. Ser idiota é quase uma “necessidade” dos dias de hoje, e quando você não é um deles passa por maus bocados. Os idiotas são intolerantes o suficiente para não suportar a realidade, os fatos e as situações da vida.

Na vida você tem que se afastar dos idiotas. O mundo está cheio deles. Cheio de doutores em idiotice, senhores e senhoras dotados de uma doença na carne. Não diria que são idiotas inúteis, levando em consideração que hoje em dia basta dizer idiota e você já vai saber que não tem utilidade alguma, evitemos então o pleonasmo.

O idiota tem uma capacidade, uma "virtú": serem bons no discurso retórico e terem assim muitos seguidores. Os idiotas são assim idolatrados, queridos com medida além daquilo que merecem. E como se conhece um idiota!? Se sabe por sua falta de senso com o real, seu caráter exagerado nas coisas humanas, e até nas que não são, eles conseguem ser idiotas! Os idiotas são homens dotados de um irrealismo, de não ter os pés no chão. Se arrogam uma capacidade de ver o futuro de modo distinto de todos os outros, mas na verdade não enxergam um palmo a frente do nariz. São doutores em defesa de uma gama infindável de bandeira e situações, mas em todas são mais idiotas do que podem crer. O idiota é alguém que apoia muitas causas, mas nenhuma suficientemente grande para a realidade, ou para com a verdade. O idiota tem imã para mentiras e desonestidades intelectuais. Ele usa tudo a seu favor na intenção única de provar suas teses e teorias, mas não consegue ir muito longe por falta de material descente e real. O idiota tem a capacidade de permanecer firme em suas ideias, ele não é alguém que muda facilmente de pensamento, e ainda que morra não aceita que está errado. O idiota é alguém que pensa em tudo, tudo aquilo que ele tem na cabeça, entretanto não pensa fora dela. Ele respeita a opinião. DELE E DE QUEM PENSA COMO ELE!

O mundo tem tantos idiotas, quanto uma colmeia tem de abelhas. O mel dos idiotas é fazer outros idiotas por meio de sua intelectualidade vazia de concretude. Todo idiota consegue ser um pseudo-intelectual, e cheio de uma desonestidade intelectual. A “doçura” do seu discurso, da facilidade com que ele atesta o irreal faz com que outros idiotas se juntem a ele. E ali ele tem o fel que amarga e inebria seus adeptos. O idiota tem essa capacidade de incendiar corações com discursos grandiosos sobre coisas vazias. Eles enchem nada, com nada e os outros idiotas veem tudo, criam coisas fantásticas em lugar algum. É como ver unicórnios num bar, cachorros fazendo construções e pescadores com histórias verídicas ou países socialistas que deram certo.

O que mais falta no idiota é aquela capacidade humana chamada de coerência de pensamento. Os idiotas são tão pueris em suas maquiavélicas deduções, que ultrapassam o termo estória em qualquer sentido possível. Ao passo que o idiota tem um caráter pessoal de ser capaz de criar "teorias" de coisas corriqueiras, e até logicamente factuais, ou seja, coisas que qualquer "idiota" seria capaz de perceber, mas nossa classe aqui citada de idiotas não consegue, contudo apenas estendem em discursos cheios de sonhos, de ópio e loucura. Você percebe um idiota quando ele não consegue dizer nada por si mesmo, mas diz sempre em nome de um todo, de uns muitos, uma certa coletividade que está dentro de si, um grupelho que ele atesta ter (e existe do mesmo modo que um país socialista que deu certo), que ele acredita existir, mas tal como os cavalos que voam e fadas dos contos, estão apenas no mundo dele.

Eu admiro os idiotas por sua capacidade de perceber coisas que dariam ótimos livros, e que seriam best-sellers da literatura de contos, na classe daqueles livros de elfos, bruxas e afins. O idiota é alguém dotado de uma condição muito grave e acentuada nos dias atuais, ele consegue com pouco fazer muito estrago nas mentes. Ele arrebanha para si um séquito de fieis idiotas, que acreditam e corroboram suas visões. O fato antes dito é afirmado pelo numeroso campo de livros escritos por idiotas. O mundo venera o idiota e o idiota acredita que o mundo é necessitado de suas palavras.

Corações ao Alto!

Dizemos: “O nosso coração está em Deus! ”, complemento das palavras do sacerdote no Santo Sacrifício quando proclama: “Corações ao alto! ”. Ao alto estejam nossos corações para nunca esquecermos que com Deus está nossa vida escondida e só ele é quem pode dar vida aos nossos corpos. Ao alto estejam nossos corações para não esquecer de quem recebemos o precioso dom da Eucaristia. Que se eleve ao trono de Deus com gratidão, por ele descer do alto para vir ficar conosco, na pobreza da nossa humanidade. Desceu, para que nós pudéssemos subir. Antes pelo Sim da Virgem, agora pelas palavras do sacerdote. Desceu, para ver nossa pequenez e agora é ele que está pequeno, escondido na alvura do Pão, aos olhos do corpo velado, mas percebido com os da alma.
Corações ao Alto, não para esquecer que somos humanos, mas para saber que cá na terra somos apenas peregrinos e que também somos espirituais, que somos corpo e alma. O céu é nossa morada, lá onde ele tem o seu trono reside nosso fim. Corações ao alto para aqui na terra fazer céu. Grandeza do homem é deixar sempre o coração onde mora o seu Senhor, uma vez que ele mesmo disse que “onde está o teu tesouro, ali está o teu coração” (Mt 6,21). Por isso completamos que “o nosso coração está em Deus”. O único tesouro que vale possuir, a única riqueza que homem algum pode desprezar. A riqueza que torna pobres e ricos irmãos, que faz quem nada tem, tudo ter. Ora, dizemos que nosso coração está em Deus e devemos dizer não somente com os lábios, mas com o coração que para ele elevamos. E ao proclamarmos essa resposta com o coração, com a alma humilde de quem deseja não ter o coração em outro lugar, Ele mesmo acolhe na sua presença nosso ser. O coração em Deus é buscar sempre viver na sua presença.
Uma vez que ressuscitou e levou consigo nossa humanidade ao céu. Não foi por nós mesmos que alcançamos ter nosso coração em Deus, não é mérito algum de nossa parte! Agostinho diz que: “E para que não atribuais a vossas próprias forças, a vossos méritos, a vosso esforço em ter o coração levantado até o Senhor, dado que é dom de Deus o tê-lo no alto” (St. Agostinho no SERMÓN 227, tradução minha). É dom e não esforço nosso. Assim sempre temos certeza de que nosso coração é feito para estar ao alto com Cristo nossa vida, por graça sua e por clemência sua.
Não pode um coração em Deus esquecer os irmãos. Não é condizente com um coração já elevado a fuga das responsabilidades, o esquecimento do próximo. Corações ao alto não é fuga, não é esconderijo, mas serviço. Quem eleva ao alto o seu coração coloca ele amostra para os demais, como se estivesse dizendo: “Um coração para servir! ”. O paradoxo desta subida é este! O coração ao alto, para descermos da nossa soberba, da nossa vaidade, do nosso orgulho. Misericórdia Senhor, ainda não subi como devia!
Dizemos o nosso coração está em Deus para que lá viva, para que deixe para trás a figura do homem velho e deixe viver o homem novo que está na vida com Deus. E se nosso coração está nas coisas passageiras, que logo perecem com sua contingência, como podem estar em Deus? Não podemos ter o coração fora do Senhor, ele não terá vida, não poderá viver com integridade!
E “o nosso coração está em Deus”? Para termos Nele nosso coração devemos buscar viver sem medo sua Palavra, seu Amor, Sua Vida em nós. Não é um coração soberbo que sobe. Não consegue! Está tão altivo em si mesmo que só consegue imaginar o andar da sua prepotência. Não sobe porque já é tão alto por si só, que não vislumbra a grandeza de ter o coração em Deus, e se diz que ele está em Deus não o diz por Amor, mas simplesmente por vaidade.
O Doutor da Graça já anunciava que o “nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso. ” (St. Agostinho em Confissões no Livro I). Fica inquieto um coração que não está com Deus. Ele se lança sobre todas as coisas e sobre todas as paixões. O próprio Agostinho é testemunha disso! E para onde tenho levado meu coração? Para quais coisas, pessoas ou finalidade o tenho elevado? Retirar o coração do pecado para elevar ao Bom Deus. O salmista depois do pecado cometido pede somente uma coisa: “Criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um espírito decidido[…] Meu sacrifício é minha alma penitente, não desprezeis um coração arrependido! ” (Sl 50,12.19) Fugir do mal e fazer o bem é ter coração em Deus. Estou longe Senhor, ainda muito longe com o meu coração! É isso o que te peço: Um coração ao alto, para estar contigo!

Tu me chamas de...

Antiga inscrição em vitral da Catedral de Lübeck, na Alemanha
“Tu me chamas de Mestre, e não Me obedeces; de Luz, e não Me vês; de Caminho, e não Me segues; de Vida, e não Me desejas; de Sábio, e não Me escutas; de Amável, e não Me amas; de Rico, e não Me invocas; de Eterno, e não Me buscas; de Justo, e em Mim não confias; de Nobre, e não Me serves; de Senhor, e não Me adoras… Se Eu te condenar, não Me culpes!”