sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O Seminário não é uma "colônia de férias!"

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O seminário é o lugar privilegiado da formação dos futuros sacerdotes da Igreja. Ali são forjados, a partir de Jesus Bom Pastor, os futuros sacerdotes. Algumas pessoas pouco sabem da vida cotidiana de um seminarista no Seminário. Podem surgir três extremos: para alguns os seminaristas ficam o dia todo rezando, uma visão um tanto piedosa. Outra parte acredita que ficamos o dia inteiro estudando, uma visão um tanto humana. Existe ainda uma outra visão equivocada do Seminário, a visão de que ele seja uma “colônia de férias”. Que seminarista fica o dia todo sem fazer nada. A vida de seminário é exigente, e não somente isso, ela é uma vida cheia de responsabilidades. Responsabilidades grandes e que devem estar de acordo com a missão que queremos abraçar. O Seminário tem uma vida própria que conduz ao famoso dito beneditino do “ora et labora”, ainda que não sejamos monges.
No seminário não temos moleza. E só vive na moleza quem quer! Trabalho não falta! Somos os primeiros responsáveis por nossa casa, o Seminário é nossa casa. O cuidado comum do ambiente de Seminário é responsabilidade de todos. Zelar por sua limpeza, harmonia e ordem é nossa obrigação. 
O serviço no seminário é dividido em equipes de serviço. No Seminário em que resido (Seminário Maior de Brasília) somos 97 Seminaristas divididos em 10 equipes, que se revezam nos serviços da casa: 
• Serviço do Copa: cuidar da organização do refeitório, servir as refeições, lavar louças. Sim, lavar louças! Quem nunca lavou vai aprender.
• Serviço de Recolhimento de Lixo: recolher o lixo dos espaços comuns da casa desde banheiros até corredores e cozinha. 
• Serviço do Jardim: ajudar no zelo pelas áreas verdes do Seminário. 
• Serviço de lavanderia: temos uma lavanderia interna, na qual cada seminarista pode enviar 10 peças por semana para lavar. Também aqui damos nossa contribuição duas vezes na semana. Caso o seminarista suje mais do que 10 peças o excedente fica por sua conta e também peças íntimas.
• Limpeza da Casa: Lavar banheiros (segunda - sexta-feira), salas, corredores e refeitório. 
Cada seminarista é também resposta pelo zelo para com suas coisas pessoais: limpeza do seu quarto e outras coisas em geral. 
Seminarista também estuda e estuda muito. São oitos anos: Filosofia (3 anos) e Teologia (4 anos), sem intervalo. Não tem moleza no estudo. Não tem essa de “são seminaristas”. Não tem essa coisa de “Filosofia de Padre”, estudamos Filosofia como qualquer outro estudante. Teologia não é aula de catequese. Tem que estudar muito! Não ficamos só lendo a Sagrada Escritura. Pensamos, refletimos, esquadrinhamos o pensamento teológico. Fazemos provas como todo estudante faz, e quando não atingimos as metas estabelecidas de aprovação somos sim reprovados. Somos cobrados no serviço de casa e também somos cobrados no estudo, com toda razão, uma vez que devemos buscar formar em nós Cristo Servidor.
Com tudo isso ainda temos alguns seminaristas que prestam serviço na coordenação e organização das diversas dimensões da vida de seminário: vida comunitária, vida acadêmica, vida espiritual, vida pastoral-missionária, vida humano-afetiva. E aqui recai uma forte exigência no que tange a organização destas dimensões: na promoção de mecanismos e elementos que possibilitem uma boa ordem, organização e realização de eventos, na ordem da casa e sua estrutura, a vida espiritual e litúrgica da casa.
Aos finais de semana trabalhamos também. Somos encaminhados ao serviço pastoral nas mais diversas realidades da Igreja: paróquia, organismos, pastorais e movimentos. Alguns perto e outros que percorrem até 330 Km para servir ao povo. Seminaristas que trabalham muito na formação das pessoas, e que fazem isso sorrindo, ainda que muito cansados. Por vezes sem um pingo de gratidão! O Senhor é nossa recompensa! Outro dia um amigo seminarista partilhava que “minha felicidade é ver os outros felizes, ainda que isso leve ao meu cansaço! ”. Vejo seminaristas que já trazem um coração de Pastor, um coração doado, dado e partilhado na vida do povo.
Também temos que cultivar a vida espiritual. O seminarista deve ser o primeiro responsável por sua vida de oração. Temos orações comunitárias: Santa Missa, Lectio Divina, Adoração e Liturgia das Horas. Como também temos que ter uma vida interior cultivada de forma pessoal. Rezamos sim e muito também! Ao passo que a oração deve ser para nós um momento de descanso com Jesus.
O Evangelho apresenta com uma clareza indubitável o chamado dos primeiros discípulos. Homens que estavam nas mais diversas experiências de vida, homens que pela força arrebatadora do chamado de Cristo deixaram tudo para seguir Jesus. Lucas em seu Evangelho traz uma palavra, que toca profundamente meu coração: “ ...e deixando tudo, eles o seguiram” Lc 5,11. Deixaram tudo para seguir o Senhor. Assim acontece com muitos seminaristas, que deixam tudo para seguir de perto Jesus. Médicos, professores, advogados, matemáticos, empresários, homens e jovens com futuros promissores, que abandonaram tudo para seguir um chamado. Deixaram sua família e muitas perspectivas de vida para ir além, para responder ao chamado Deus que arde em seus corações, um chamado inquietante! Essa é para você que acha que tem muito para perder! Sim, temos que “perder muito” para ser padre! Perder tudo aquilo que “normalmente” um homem seguiria na vida. O seminarista é alguém que perdeu para ganhar, e vai ganhar cem vezes mais: “Em verdade vos digo que não há quem tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras por minha causa ou por causa do Evangelho, que não receba cem vezes mais desde agora, neste tempo, casas, irmãos e irmãs, mãe e filhos e terras, com perseguições; e no mundo futuro, a vida eterna. ” Mc 10, 29-30. O que percebo é que essa perda em nada pode ser comparada com o ganho. 
Lembro até hoje quando disse para algumas pessoas sobre minha decisão. Fui muito questionado sobre minha escolha. Diziam do meu futuro promissor, minha escolha não me faria feliz, talvez seria melhor deixar para depois da faculdade, depois de “experimentar mais a vida”. Fui taxado de louco, de quem não tinha vivido ainda... De fato foi uma loucura! Uma loucura de Amor. Era preciso ser louco mesmo, para com 16 anos tomar essa decisão. Uma loucura que não tenho nenhum arrependimento. Uma loucura que tantos outros loucos como eu tomaram. Hoje posso dizer que sou feliz com minha escolha, que tem seus desafios como qualquer escolha na vida.
Eu confesso de todo o coração, e não somente por ser seminarista, que admiro os meus irmãos. Admiro a entrega deles. Admiro a fortaleza de cada um em deixar tudo, em superar a saudade e o sofrimento da distância dos seus. Perder momentos que são importantes na vida de uma pessoa para prosseguir na caminhada. Admiro estes homens que abandonaram tudo o que tinha para seguir Jesus. Admiro o sorriso no rosto que trazem, a alegria da entrega diária de continuar a dizer sim, mesmo com o cansaço das labutas cotidianas. Homens que trazem cravados na sua vida o gesto da entrega ao outro. O Seminário não é uma colônia de férias, não é um hotel para descanso de oito anos. É lugar para formar homens que queiram abraçar o sacerdócio com todos os seus desafios e lutas.