sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O Seminário não é uma "colônia de férias!"

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O seminário é o lugar privilegiado da formação dos futuros sacerdotes da Igreja. Ali são forjados, a partir de Jesus Bom Pastor, os futuros sacerdotes. Algumas pessoas pouco sabem da vida cotidiana de um seminarista no Seminário. Podem surgir três extremos: para alguns os seminaristas ficam o dia todo rezando, uma visão um tanto piedosa. Outra parte acredita que ficamos o dia inteiro estudando, uma visão um tanto humana. Existe ainda uma outra visão equivocada do Seminário, a visão de que ele seja uma “colônia de férias”. Que seminarista fica o dia todo sem fazer nada. A vida de seminário é exigente, e não somente isso, ela é uma vida cheia de responsabilidades. Responsabilidades grandes e que devem estar de acordo com a missão que queremos abraçar. O Seminário tem uma vida própria que conduz ao famoso dito beneditino do “ora et labora”, ainda que não sejamos monges.
No seminário não temos moleza. E só vive na moleza quem quer! Trabalho não falta! Somos os primeiros responsáveis por nossa casa, o Seminário é nossa casa. O cuidado comum do ambiente de Seminário é responsabilidade de todos. Zelar por sua limpeza, harmonia e ordem é nossa obrigação. 
O serviço no seminário é dividido em equipes de serviço. No Seminário em que resido (Seminário Maior de Brasília) somos 97 Seminaristas divididos em 10 equipes, que se revezam nos serviços da casa: 
• Serviço do Copa: cuidar da organização do refeitório, servir as refeições, lavar louças. Sim, lavar louças! Quem nunca lavou vai aprender.
• Serviço de Recolhimento de Lixo: recolher o lixo dos espaços comuns da casa desde banheiros até corredores e cozinha. 
• Serviço do Jardim: ajudar no zelo pelas áreas verdes do Seminário. 
• Serviço de lavanderia: temos uma lavanderia interna, na qual cada seminarista pode enviar 10 peças por semana para lavar. Também aqui damos nossa contribuição duas vezes na semana. Caso o seminarista suje mais do que 10 peças o excedente fica por sua conta e também peças íntimas.
• Limpeza da Casa: Lavar banheiros (segunda - sexta-feira), salas, corredores e refeitório. 
Cada seminarista é também resposta pelo zelo para com suas coisas pessoais: limpeza do seu quarto e outras coisas em geral. 
Seminarista também estuda e estuda muito. São oitos anos: Filosofia (3 anos) e Teologia (4 anos), sem intervalo. Não tem moleza no estudo. Não tem essa de “são seminaristas”. Não tem essa coisa de “Filosofia de Padre”, estudamos Filosofia como qualquer outro estudante. Teologia não é aula de catequese. Tem que estudar muito! Não ficamos só lendo a Sagrada Escritura. Pensamos, refletimos, esquadrinhamos o pensamento teológico. Fazemos provas como todo estudante faz, e quando não atingimos as metas estabelecidas de aprovação somos sim reprovados. Somos cobrados no serviço de casa e também somos cobrados no estudo, com toda razão, uma vez que devemos buscar formar em nós Cristo Servidor.
Com tudo isso ainda temos alguns seminaristas que prestam serviço na coordenação e organização das diversas dimensões da vida de seminário: vida comunitária, vida acadêmica, vida espiritual, vida pastoral-missionária, vida humano-afetiva. E aqui recai uma forte exigência no que tange a organização destas dimensões: na promoção de mecanismos e elementos que possibilitem uma boa ordem, organização e realização de eventos, na ordem da casa e sua estrutura, a vida espiritual e litúrgica da casa.
Aos finais de semana trabalhamos também. Somos encaminhados ao serviço pastoral nas mais diversas realidades da Igreja: paróquia, organismos, pastorais e movimentos. Alguns perto e outros que percorrem até 330 Km para servir ao povo. Seminaristas que trabalham muito na formação das pessoas, e que fazem isso sorrindo, ainda que muito cansados. Por vezes sem um pingo de gratidão! O Senhor é nossa recompensa! Outro dia um amigo seminarista partilhava que “minha felicidade é ver os outros felizes, ainda que isso leve ao meu cansaço! ”. Vejo seminaristas que já trazem um coração de Pastor, um coração doado, dado e partilhado na vida do povo.
Também temos que cultivar a vida espiritual. O seminarista deve ser o primeiro responsável por sua vida de oração. Temos orações comunitárias: Santa Missa, Lectio Divina, Adoração e Liturgia das Horas. Como também temos que ter uma vida interior cultivada de forma pessoal. Rezamos sim e muito também! Ao passo que a oração deve ser para nós um momento de descanso com Jesus.
O Evangelho apresenta com uma clareza indubitável o chamado dos primeiros discípulos. Homens que estavam nas mais diversas experiências de vida, homens que pela força arrebatadora do chamado de Cristo deixaram tudo para seguir Jesus. Lucas em seu Evangelho traz uma palavra, que toca profundamente meu coração: “ ...e deixando tudo, eles o seguiram” Lc 5,11. Deixaram tudo para seguir o Senhor. Assim acontece com muitos seminaristas, que deixam tudo para seguir de perto Jesus. Médicos, professores, advogados, matemáticos, empresários, homens e jovens com futuros promissores, que abandonaram tudo para seguir um chamado. Deixaram sua família e muitas perspectivas de vida para ir além, para responder ao chamado Deus que arde em seus corações, um chamado inquietante! Essa é para você que acha que tem muito para perder! Sim, temos que “perder muito” para ser padre! Perder tudo aquilo que “normalmente” um homem seguiria na vida. O seminarista é alguém que perdeu para ganhar, e vai ganhar cem vezes mais: “Em verdade vos digo que não há quem tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras por minha causa ou por causa do Evangelho, que não receba cem vezes mais desde agora, neste tempo, casas, irmãos e irmãs, mãe e filhos e terras, com perseguições; e no mundo futuro, a vida eterna. ” Mc 10, 29-30. O que percebo é que essa perda em nada pode ser comparada com o ganho. 
Lembro até hoje quando disse para algumas pessoas sobre minha decisão. Fui muito questionado sobre minha escolha. Diziam do meu futuro promissor, minha escolha não me faria feliz, talvez seria melhor deixar para depois da faculdade, depois de “experimentar mais a vida”. Fui taxado de louco, de quem não tinha vivido ainda... De fato foi uma loucura! Uma loucura de Amor. Era preciso ser louco mesmo, para com 16 anos tomar essa decisão. Uma loucura que não tenho nenhum arrependimento. Uma loucura que tantos outros loucos como eu tomaram. Hoje posso dizer que sou feliz com minha escolha, que tem seus desafios como qualquer escolha na vida.
Eu confesso de todo o coração, e não somente por ser seminarista, que admiro os meus irmãos. Admiro a entrega deles. Admiro a fortaleza de cada um em deixar tudo, em superar a saudade e o sofrimento da distância dos seus. Perder momentos que são importantes na vida de uma pessoa para prosseguir na caminhada. Admiro estes homens que abandonaram tudo o que tinha para seguir Jesus. Admiro o sorriso no rosto que trazem, a alegria da entrega diária de continuar a dizer sim, mesmo com o cansaço das labutas cotidianas. Homens que trazem cravados na sua vida o gesto da entrega ao outro. O Seminário não é uma colônia de férias, não é um hotel para descanso de oito anos. É lugar para formar homens que queiram abraçar o sacerdócio com todos os seus desafios e lutas.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A "revolução" do idiota


Houve um tempo em que ser idiota era um fato grotesco e dado ao ridículo. Um tempo em que os idiotas faziam jus legítimo de sua condição, e não se davam ao trabalho de atestar isso, sua fala e seus trejeitos eram o maior dado de sua situação. Nem sempre os idiotas eram, como no senso comum, alguém em quem faltava cultura. E aí temos um fato curioso dos idiotas: eles conseguem saber um pouco das coisas, mas não conseguem deixar sua condição rasa das realidades, e nesse fato reside o maior problema de todo idiota, ele é um antirrealista, alguém dado a um sono constante das coisas reais. Um drogado da pior droga que um homem pode fazer uso, a falta de concretude de vida. A falta de ver as coisas na sua profundidade, no seu íntimo, o idiota é sempre dado ao raso.

Hoje é difícil não conviver com os idiotas. Eles conseguiram na destreza de sua condição, fazer uma verdadeira revolução, a única coisa que os idiotas conseguiram fazer de grande foi a percepção de que eles eram mais numerosos do que os homens dotados do realismo. Chego a mentir tendo em vista que em outra coisa os idiotas conseguem ser grandes: o seu número! O tempo hodierno é tratado por uma reviravolta única dos idiotas, eles conseguiram submeter a sua condição os lúcidos, os esclarecidos, ao passo que ser idiota hoje é uma honra. Ser idiota é quase uma “necessidade” dos dias de hoje, e quando você não é um deles passa por maus bocados. Os idiotas são intolerantes o suficiente para não suportar a realidade, os fatos e as situações da vida.

Na vida você tem que se afastar dos idiotas. O mundo está cheio deles. Cheio de doutores em idiotice, senhores e senhoras dotados de uma doença na carne. Não diria que são idiotas inúteis, levando em consideração que hoje em dia basta dizer idiota e você já vai saber que não tem utilidade alguma, evitemos então o pleonasmo.

O idiota tem uma capacidade, uma "virtú": serem bons no discurso retórico e terem assim muitos seguidores. Os idiotas são assim idolatrados, queridos com medida além daquilo que merecem. E como se conhece um idiota!? Se sabe por sua falta de senso com o real, seu caráter exagerado nas coisas humanas, e até nas que não são, eles conseguem ser idiotas! Os idiotas são homens dotados de um irrealismo, de não ter os pés no chão. Se arrogam uma capacidade de ver o futuro de modo distinto de todos os outros, mas na verdade não enxergam um palmo a frente do nariz. São doutores em defesa de uma gama infindável de bandeira e situações, mas em todas são mais idiotas do que podem crer. O idiota é alguém que apoia muitas causas, mas nenhuma suficientemente grande para a realidade, ou para com a verdade. O idiota tem imã para mentiras e desonestidades intelectuais. Ele usa tudo a seu favor na intenção única de provar suas teses e teorias, mas não consegue ir muito longe por falta de material descente e real. O idiota tem a capacidade de permanecer firme em suas ideias, ele não é alguém que muda facilmente de pensamento, e ainda que morra não aceita que está errado. O idiota é alguém que pensa em tudo, tudo aquilo que ele tem na cabeça, entretanto não pensa fora dela. Ele respeita a opinião. DELE E DE QUEM PENSA COMO ELE!

O mundo tem tantos idiotas, quanto uma colmeia tem de abelhas. O mel dos idiotas é fazer outros idiotas por meio de sua intelectualidade vazia de concretude. Todo idiota consegue ser um pseudo-intelectual, e cheio de uma desonestidade intelectual. A “doçura” do seu discurso, da facilidade com que ele atesta o irreal faz com que outros idiotas se juntem a ele. E ali ele tem o fel que amarga e inebria seus adeptos. O idiota tem essa capacidade de incendiar corações com discursos grandiosos sobre coisas vazias. Eles enchem nada, com nada e os outros idiotas veem tudo, criam coisas fantásticas em lugar algum. É como ver unicórnios num bar, cachorros fazendo construções e pescadores com histórias verídicas ou países socialistas que deram certo.

O que mais falta no idiota é aquela capacidade humana chamada de coerência de pensamento. Os idiotas são tão pueris em suas maquiavélicas deduções, que ultrapassam o termo estória em qualquer sentido possível. Ao passo que o idiota tem um caráter pessoal de ser capaz de criar "teorias" de coisas corriqueiras, e até logicamente factuais, ou seja, coisas que qualquer "idiota" seria capaz de perceber, mas nossa classe aqui citada de idiotas não consegue, contudo apenas estendem em discursos cheios de sonhos, de ópio e loucura. Você percebe um idiota quando ele não consegue dizer nada por si mesmo, mas diz sempre em nome de um todo, de uns muitos, uma certa coletividade que está dentro de si, um grupelho que ele atesta ter (e existe do mesmo modo que um país socialista que deu certo), que ele acredita existir, mas tal como os cavalos que voam e fadas dos contos, estão apenas no mundo dele.

Eu admiro os idiotas por sua capacidade de perceber coisas que dariam ótimos livros, e que seriam best-sellers da literatura de contos, na classe daqueles livros de elfos, bruxas e afins. O idiota é alguém dotado de uma condição muito grave e acentuada nos dias atuais, ele consegue com pouco fazer muito estrago nas mentes. Ele arrebanha para si um séquito de fieis idiotas, que acreditam e corroboram suas visões. O fato antes dito é afirmado pelo numeroso campo de livros escritos por idiotas. O mundo venera o idiota e o idiota acredita que o mundo é necessitado de suas palavras.

Corações ao Alto!

Dizemos: “O nosso coração está em Deus! ”, complemento das palavras do sacerdote no Santo Sacrifício quando proclama: “Corações ao alto! ”. Ao alto estejam nossos corações para nunca esquecermos que com Deus está nossa vida escondida e só ele é quem pode dar vida aos nossos corpos. Ao alto estejam nossos corações para não esquecer de quem recebemos o precioso dom da Eucaristia. Que se eleve ao trono de Deus com gratidão, por ele descer do alto para vir ficar conosco, na pobreza da nossa humanidade. Desceu, para que nós pudéssemos subir. Antes pelo Sim da Virgem, agora pelas palavras do sacerdote. Desceu, para ver nossa pequenez e agora é ele que está pequeno, escondido na alvura do Pão, aos olhos do corpo velado, mas percebido com os da alma.
Corações ao Alto, não para esquecer que somos humanos, mas para saber que cá na terra somos apenas peregrinos e que também somos espirituais, que somos corpo e alma. O céu é nossa morada, lá onde ele tem o seu trono reside nosso fim. Corações ao alto para aqui na terra fazer céu. Grandeza do homem é deixar sempre o coração onde mora o seu Senhor, uma vez que ele mesmo disse que “onde está o teu tesouro, ali está o teu coração” (Mt 6,21). Por isso completamos que “o nosso coração está em Deus”. O único tesouro que vale possuir, a única riqueza que homem algum pode desprezar. A riqueza que torna pobres e ricos irmãos, que faz quem nada tem, tudo ter. Ora, dizemos que nosso coração está em Deus e devemos dizer não somente com os lábios, mas com o coração que para ele elevamos. E ao proclamarmos essa resposta com o coração, com a alma humilde de quem deseja não ter o coração em outro lugar, Ele mesmo acolhe na sua presença nosso ser. O coração em Deus é buscar sempre viver na sua presença.
Uma vez que ressuscitou e levou consigo nossa humanidade ao céu. Não foi por nós mesmos que alcançamos ter nosso coração em Deus, não é mérito algum de nossa parte! Agostinho diz que: “E para que não atribuais a vossas próprias forças, a vossos méritos, a vosso esforço em ter o coração levantado até o Senhor, dado que é dom de Deus o tê-lo no alto” (St. Agostinho no SERMÓN 227, tradução minha). É dom e não esforço nosso. Assim sempre temos certeza de que nosso coração é feito para estar ao alto com Cristo nossa vida, por graça sua e por clemência sua.
Não pode um coração em Deus esquecer os irmãos. Não é condizente com um coração já elevado a fuga das responsabilidades, o esquecimento do próximo. Corações ao alto não é fuga, não é esconderijo, mas serviço. Quem eleva ao alto o seu coração coloca ele amostra para os demais, como se estivesse dizendo: “Um coração para servir! ”. O paradoxo desta subida é este! O coração ao alto, para descermos da nossa soberba, da nossa vaidade, do nosso orgulho. Misericórdia Senhor, ainda não subi como devia!
Dizemos o nosso coração está em Deus para que lá viva, para que deixe para trás a figura do homem velho e deixe viver o homem novo que está na vida com Deus. E se nosso coração está nas coisas passageiras, que logo perecem com sua contingência, como podem estar em Deus? Não podemos ter o coração fora do Senhor, ele não terá vida, não poderá viver com integridade!
E “o nosso coração está em Deus”? Para termos Nele nosso coração devemos buscar viver sem medo sua Palavra, seu Amor, Sua Vida em nós. Não é um coração soberbo que sobe. Não consegue! Está tão altivo em si mesmo que só consegue imaginar o andar da sua prepotência. Não sobe porque já é tão alto por si só, que não vislumbra a grandeza de ter o coração em Deus, e se diz que ele está em Deus não o diz por Amor, mas simplesmente por vaidade.
O Doutor da Graça já anunciava que o “nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso. ” (St. Agostinho em Confissões no Livro I). Fica inquieto um coração que não está com Deus. Ele se lança sobre todas as coisas e sobre todas as paixões. O próprio Agostinho é testemunha disso! E para onde tenho levado meu coração? Para quais coisas, pessoas ou finalidade o tenho elevado? Retirar o coração do pecado para elevar ao Bom Deus. O salmista depois do pecado cometido pede somente uma coisa: “Criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um espírito decidido[…] Meu sacrifício é minha alma penitente, não desprezeis um coração arrependido! ” (Sl 50,12.19) Fugir do mal e fazer o bem é ter coração em Deus. Estou longe Senhor, ainda muito longe com o meu coração! É isso o que te peço: Um coração ao alto, para estar contigo!

Tu me chamas de...

Antiga inscrição em vitral da Catedral de Lübeck, na Alemanha
“Tu me chamas de Mestre, e não Me obedeces; de Luz, e não Me vês; de Caminho, e não Me segues; de Vida, e não Me desejas; de Sábio, e não Me escutas; de Amável, e não Me amas; de Rico, e não Me invocas; de Eterno, e não Me buscas; de Justo, e em Mim não confias; de Nobre, e não Me serves; de Senhor, e não Me adoras… Se Eu te condenar, não Me culpes!”

Vestiu-se de morte

A veste negra que cobre o corpo é a mortalha escura do homem morto. Vestiu-se de negra capa para cobrir-se de santidade. Nas fibras brunas daquele manto decidiu guardar sua vida das vaidades fúteis que revestem o mundo. E ainda que transmitam escura cor é como luz sua presença. Decidiu vestir-se assim parar gritar no silêncio de quem olha os sinais firmes de sua decisão. Para unir seu coração ao sinal externo da sua escolha. Não mais vestir-se nos gostos deste mundo, porque já aqui deseja transmitir o que será no céu seu ser: guardado para Cristo.
Ele não usa batina porque é melhor. Não usa porque é mais santo. Ele usa para buscar santidade. Para dizer aos outros: “Aqui tem um homem que na sua humanidade busca ser de Deus! Aqui tem um homem que quer ser Deus!”, logo não significa que quem não usa não seja santo, ou não busque Deus, mas este foi o jeito que ele encontrou de viver sua busca. Ao passo que sua batina não é glória, não é um status e tão pouco um afastamento dos outros homens completamente, mas um sinal de proximidade, o signo para que outros dele se acheguem e sintam por um instante que seja: Deus está conosco! Quem não veste a batina com este sentido está fora do verdadeiro sentido desta veste.
A batina é morte. E vai matando aos poucos em nós o que somos, para que aos poucos Cristo viva em nós!
Vestiu-se de morte este homem. De penumbra cor guardou seu corpo, não para honra de seu nome, mas para glória daquele pelo qual quis estar revestido. Cobriu-se de escura manta não só aos olhos humanos, contudo também seu coração foi revestido de outra veste superior, que é como complemento desta. Vestiu seu coração de caridade, de fé e esperança, que são o sentido daquela primeira. Vestiu-se de morte este homem para dar vida, para levar vida. Sua veste negra é o sinal de que ele irá e não se cansará. Decidiu unir estritamente os sentidos dessa, com os sinais da vida. Só assim toma sentido o vestir-se desse sinal de pertença.
Vestiu-se de morte este homem para dizer aos homens que é um homem já morto para suas riquezas, porque guardou no céu todo seu tesouro e só neste Bem poderá ser rico. Que paradoxal sinal: nada ter para Tudo possuir. E o homem que decide vestir-se de negra veste deve deixar as efêmeras coisas dessa terra para juntar tesouros no céu. Deve descobrir que aquela veste é o sinal do bem maior que deve possuir, de quem lhe dará tudo quanto precisa, porque Ele mesmo o basta para que possa ter tudo, porque Ele é Tudo e o todo é Dele. Vestir-se de morte é nada guardar para si, porque o que tem não é seu, mas foi recebido Daquele que tudo tem.
A Batina não deve ser vestida por modismo. A batina não é fantasia. Ela é veste feita para dizer ao mundo nossa escolha. Não se veste batina para honra-se, ou para ser autoridade, a batina diz que é serviço. A grandeza de quem a veste está contido no desejo de servir aos outros. Quem veste uma batina deve sempre ter a certeza de estar dizendo ao mundo: “Eu estou aqui para servir!”. Uma batina é como avental dos servos, o “uniforme” daqueles que querem ser para o outro.
Vestiu-se de morte este homem parar apresentar Aquele que antes dele também se revestiu de morte para dar vida. Não é ele sinal por si mesmo, entretanto é tela daquele que é a verdadeira obra. Não é ele o principal, não é por si mesmo e não será jamais, porque deixa que o sentido também daquela veste seja o protagonista de sua história. Não veste por fama, por poder, por vaidade. Vestiu-se de morte para que transmita o seu Amado. O que desposou sua alma e vestiu ele com veste nupcial mais digna, veste que diga: “És Meu!”.
Aos olhos humanos é um louco. Dizem seus opositores: “Louco”, “Coisa velha”, “Vive no passado”, “Tradicionalista demente!”. O que faz o homem já morto? Acolhe tais ditos como flores que são jogadas para seu Esposo. O sinal de que não é diferente do seu Amado, que antes dele também foi insultado por escolher viver além deste mundo. E o homem morto não mais se importuna com isso, porque não é sua morte escolha dos homens, mas daquele que antes dele, também livremente deu sua vida para que outros pudessem alcançar o Reino.

Carlo Acutis : Ser jovem e ser santo.

Como um jovem é capaz de ultrapassar grandes sofrimentos por causa de uma doença e sofrer tais coisas por causa do Papa e da Igreja? Como um jovem vive uma vida com alegria plena, alegria que é própria da Juventude, sem precisar andar por caminhos sombrios e efêmeros? Nos nossos dias parece uma utopia que tenha existido um jovem assim, contudo ele existiu. Seu nome é Carlo Acutis, um jovem nascido em Londres no dia 3 de maio de 1991, que em setembro do mesmo ano mudou-se para cidade italiana de Milão.
Carlo viveu uma vida com juventude plena. Tinha diversões, jogava Playstation, assistia Pokémon seu desenho favorito e era fascinado pelo mundo da informática. Havia, porém algo que tornava ainda mais plena a sua juventude: Cristo Jesus e o amor por Maria. Carlo era um jovem devoto, caridoso, amável, simples e apesar da riqueza de sua família era pobre. Tudo aquilo que ganhava doava aos pobres, não aceitava ter dois pares de sapatos e convencia parentes e amigos a ajudarem obras de caridade.
Um jovem que soube descobrir sua porta de entrada para o céu. Ela estava conclusa na adoração e no amor a Eucaristia. Amor que ficou consagrado em uma máxima: “A Eucaristia e minha estrada para o céu!”. Amor que manifestou em visitas diárias ao Santíssimo. Amor que procurava sempre crescer e viver longe do pecado e dos vícios, com uma vida de confissão semanal. Afirmava que somos como balões que não alçam voo sem antes deixamos para trás as pedrinhas que nos prendem a terra, mesmo que sejam as menores faltas. Amor que ficou impresso naqueles que conviveram com ele e que dão testemunho de sua vida de santidade.
Carlo chegou a dizer que “Os homens se preocupam tanto com a beleza do próprio corpo e não se preocupam com a beleza da própria alma!”, e assim dava testemunho do cuidado que tinha para que o Bom mestre o encontrasse puro e sem macha. Carlo entendeu que não podemos querer nada para nós, ao passo que “não ao amor próprio, mas a glória de Deus”.
Carlo deixou para nós oito “balões” que nos elevam ao mais alto da santidade, como que testamento espiritual:
1)Você deve querer isso com todo o seu coração, e se esse desejo ainda não tiver aflorado em seu coração, deve pedir com insistência ao Senhor.
2) Vá à missa todos os dias e faça Santa Comunhão e ainda dizia que “se vai ao Paraíso se se aproxima todos os dias da Eucaristia.”
3) Lembre-se de recitar o Rosário todos os dias.
4) Leia todos os dias uma passagem da Santa Escritura.
5) Se você puder fazer um momento de adoração eucarística diante do altar, lugar onde Jesus está realmente presente, verá o quão maravilhosamente pode aumentar o seu nível de santidade.
6) Vá ao confessionário toda semana, mesmo que os pecados sejam banais.
7) Faça pedidos e ofereça flores para o Senhor e Nossa Senhora, a fim de ajudar os outros.
8) Peça ao seu Anjo da Guarda para ajudá-lo continuamente, de modo que ele se torne seu melhor amigo. ”
O Jovem Carlo Acutis faleceu no ano de 2006, depois da descoberta de uma leucemia fulminante. Passou vários meses internado, com uma serenidade e entrega sem iguais. Ofereceu os sofrimentos que padecia e que havia de padecer ao Senhor pelo Papa e a Igreja. Fez sua páscoa no dia 12 de outubro, dia da Mãe Aparecida, de 2006. Carlo Acutis ficou conhecido como o anjo da juventude. Seu processo de beatificação está em andamento e são muitos os testemunhos sobre ele.
Carlo é um jovem como eu e como você. Um jovem de 15 anos que lutou para alcançar uma vida santa e digna para Cristo. Um exemplo para nós de que ser santo é possível, ser santo é algo que pode ser alcançado, ou como diria Jean Ganott : “Santidade é ter toda vida enraizada em Deus. Como uma plantinha que vive firme nesse solo.”

São Tarcísio: O heroísmo de escolher Jesus.

Em tempos da Igreja primitiva e perseguições promovidas pelo império surgem uma constelação de nomes santos que preferiram perder sua vida a deixar de viver retamente diante de Jesus. Dentre estes tantos luminares de mártires destaca-se o valoroso jovem Tarcísio. O mártir da Eucaristia.

A necessidade de levar Jesus eucarístico aos encarcerados cristãos levou este jovem ao ímpeto valoroso de colocar-se a disposição para esta missão. E mesmo sendo tão jovem entendeu a grandiosidade daquela missão. Tarcísio por fim no caminho para aquele grandioso labor encontrou o martírio. Foi apedrejado por negar-se a revelar o conteúdo do tesouro que carregava próximo ao peito. Anda sob uma chuva de pedras, injúrias e pontapés manteve-se firme no seu propósito : “Ó meu Jesus, ninguém vos tirará do meu coração”. Foi ao ponto extremo de dar sua vida para que nada fosse cometido de profano contra o Santíssimo Sacramento.
A grandeza do ato de Tarcísio conduz meu pensamento ao heroísmo deste jovem em escolher Jesus com sua vida. A grandeza de seu ato não consiste puramente no ato exterior de dar sua vida, já por si só admirável, entretanto reside no firme propósito que edificou no seu interior. O ato valoroso de negar-se a brincar naquele momento, para realizar com dedicação o seu juramento de levar com sua vida o Senhor Jesus aos encarcerados. Este é o heroísmo dos mártires. Um ato que sobrepõe todas as coisas humanas por aquilo que existe de mais elevado : o carregar Jesus com sua vida sem jamais abandonar sua Presença e Amor. E este ato foi uma escolha que dispensou outro ao qual humanamente falando poderia realizar. Que maldade haveria em brincar? Sendo ainda tão infante poderia sem temor algum se deter em jogos e divertimentos com aqueles outros meninos, no entanto Tarcísio escolheu ser portador de Cristo. Escolheu Cristo por inteiro. Que menino admirável! Nada o retirou do seu caminho de conduzir Jesus aos seus irmãos. O heroísmo não consiste que façamos grandes façanhas!  A grandeza do homem não consiste no fato de que ele faça “grandes coisas”, mas que ele faça com grandeza aquilo que tem que fazer no seu estado de vida. É isso que devemos chamar de heroísmo. Foi isso que aquele menino fez. Ele manteve-se firme na sua resolução e com heroísmo venceu todas a intempéries.
Como falta em nós um pouco deste menino! Pouca coisa e soltamos o Senhor! Nosso heroísmo se esvai facilmente diante das provações, dos prazeres e das coisas que o mundo oferece. Não temos heroísmo naquilo que fazemos, no nosso estado de vida porque ainda estamos presos a nós. Não era Tarcísio que prendia Jesus aos seus braços, mas era o Senhor que o carregava com o peso do seu Amor. Não somos capazes de sentir o peso do Amor de Jesus em nossas vidas. Somos demasiado mesquinhos e soberbos, pessimistas ao ponto de não percebemos que também Ele nos escolheu para carregar sua presença aos outros. Vejo Tarcísio como modelo de heroísmo porque soube sobre todas as coisas escolher a Pessoa que o sustentava em seus propósitos.
O que diz o mundo do heroísmo se não uma vitória constante sobre determinado obstáculo, coisa ou pessoa? Um ato heroico é fazer coisas ditas “grandes”, em outras palavras, que todos possam ver. Aos olhos de Deus o grande heroísmo consiste em realizar com afinco o seu propósito como pessoa. Os esposos na sua fidelidade mútua, os castos na sua continência que está alicerçada no Amor a Deus e ao próximo, os celibatários no resguardo amoroso para o Senhor e no serviço ao outro. São estas coisas ditas ordinária, “do dia a dia” que devem ser vividas com intensidade de espírito e coração, na vivência firme dos seus propósitos, mas sempre certos que é o Senhor quem nos carrega. Grande mesmo é quem escolhe não se desviar do caminho certo, por outros incertos, ainda que sejam bons. Uma coisa ser boa não diz que ela é feita para nós.
É quando escolhemos ser com fidelidade e sinceridade de coração nosso chamado, sem amarras falsas ou projetos secundários que somos heróis. Não colocar “adereços” desnecessários aos nossos caminhos, coisas que parecem leves aos nossos olhos, mas que são um peso. São Tarcísio ensina que não basta carregar Jesus, no entanto é preciso ter firme em nosso interior as resoluções que temos para uma vida santa.