Dizemos: “O nosso coração está em Deus! ”, complemento das palavras do sacerdote no Santo Sacrifício quando proclama: “Corações ao alto! ”. Ao alto estejam nossos corações para nunca esquecermos que com Deus está nossa vida escondida e só ele é quem pode dar vida aos nossos corpos. Ao alto estejam nossos corações para não esquecer de quem recebemos o precioso dom da Eucaristia. Que se eleve ao trono de Deus com gratidão, por ele descer do alto para vir ficar conosco, na pobreza da nossa humanidade. Desceu, para que nós pudéssemos subir. Antes pelo Sim da Virgem, agora pelas palavras do sacerdote. Desceu, para ver nossa pequenez e agora é ele que está pequeno, escondido na alvura do Pão, aos olhos do corpo velado, mas percebido com os da alma.
Corações ao Alto, não para esquecer que somos humanos, mas para saber que cá na terra somos apenas peregrinos e que também somos espirituais, que somos corpo e alma. O céu é nossa morada, lá onde ele tem o seu trono reside nosso fim. Corações ao alto para aqui na terra fazer céu. Grandeza do homem é deixar sempre o coração onde mora o seu Senhor, uma vez que ele mesmo disse que “onde está o teu tesouro, ali está o teu coração” (Mt 6,21). Por isso completamos que “o nosso coração está em Deus”. O único tesouro que vale possuir, a única riqueza que homem algum pode desprezar. A riqueza que torna pobres e ricos irmãos, que faz quem nada tem, tudo ter. Ora, dizemos que nosso coração está em Deus e devemos dizer não somente com os lábios, mas com o coração que para ele elevamos. E ao proclamarmos essa resposta com o coração, com a alma humilde de quem deseja não ter o coração em outro lugar, Ele mesmo acolhe na sua presença nosso ser. O coração em Deus é buscar sempre viver na sua presença.
Uma vez que ressuscitou e levou consigo nossa humanidade ao céu. Não foi por nós mesmos que alcançamos ter nosso coração em Deus, não é mérito algum de nossa parte! Agostinho diz que: “E para que não atribuais a vossas próprias forças, a vossos méritos, a vosso esforço em ter o coração levantado até o Senhor, dado que é dom de Deus o tê-lo no alto” (St. Agostinho no SERMÓN 227, tradução minha). É dom e não esforço nosso. Assim sempre temos certeza de que nosso coração é feito para estar ao alto com Cristo nossa vida, por graça sua e por clemência sua.
Não pode um coração em Deus esquecer os irmãos. Não é condizente com um coração já elevado a fuga das responsabilidades, o esquecimento do próximo. Corações ao alto não é fuga, não é esconderijo, mas serviço. Quem eleva ao alto o seu coração coloca ele amostra para os demais, como se estivesse dizendo: “Um coração para servir! ”. O paradoxo desta subida é este! O coração ao alto, para descermos da nossa soberba, da nossa vaidade, do nosso orgulho. Misericórdia Senhor, ainda não subi como devia!
Dizemos o nosso coração está em Deus para que lá viva, para que deixe para trás a figura do homem velho e deixe viver o homem novo que está na vida com Deus. E se nosso coração está nas coisas passageiras, que logo perecem com sua contingência, como podem estar em Deus? Não podemos ter o coração fora do Senhor, ele não terá vida, não poderá viver com integridade!
E “o nosso coração está em Deus”? Para termos Nele nosso coração devemos buscar viver sem medo sua Palavra, seu Amor, Sua Vida em nós. Não é um coração soberbo que sobe. Não consegue! Está tão altivo em si mesmo que só consegue imaginar o andar da sua prepotência. Não sobe porque já é tão alto por si só, que não vislumbra a grandeza de ter o coração em Deus, e se diz que ele está em Deus não o diz por Amor, mas simplesmente por vaidade.
O Doutor da Graça já anunciava que o “nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso. ” (St. Agostinho em Confissões no Livro I). Fica inquieto um coração que não está com Deus. Ele se lança sobre todas as coisas e sobre todas as paixões. O próprio Agostinho é testemunha disso! E para onde tenho levado meu coração? Para quais coisas, pessoas ou finalidade o tenho elevado? Retirar o coração do pecado para elevar ao Bom Deus. O salmista depois do pecado cometido pede somente uma coisa: “Criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um espírito decidido[…] Meu sacrifício é minha alma penitente, não desprezeis um coração arrependido! ” (Sl 50,12.19) Fugir do mal e fazer o bem é ter coração em Deus. Estou longe Senhor, ainda muito longe com o meu coração! É isso o que te peço: Um coração ao alto, para estar contigo!

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